GRANDE PREMIO DA AUSTRIA DE 1972


Osterreichring, 13 de agosto de 1972


A equipe Lotus resolveu, depois do GP da Alemanha, desmontar todo o carro de Emerson, a título de revisar todo o equipamento.

A revisão demorou muito.

Emerson, em conseqüência, participou do 1o treino oficial com o carro reserva.



O carro reserva era um modelo de 1970 com motor série 11 de 700 km de uso.

O carro reserva estava perfeito e Emerson conseguiu o melhor tempo dos treinos, cravando imbatíveis 1.35.9

Chegou o Sábado e com ele o novo Lotus.

Revisado, novinho e tinindo.

Motor série 12.

O carro, surpreendentemente, não andou bem.

Emerson tentou, durante todo o dia, melhorar o desempenho do carro.

Trocou molas, amortecedores, barra estabilizadora, aerofólio e a suspensão.

Trocaram até o motor.

Não adiantou nada.

O brasileiro só conseguiu marcar, depois de grande esforço, 1.36.3 , o que significava a terceira posição no grid.

Clay Regazzoni foi o segundo melhor tempo, seguido pôr Jackie Stewart, Peter Revson e Carlos Reutemann.

Wilson Fittipaldi Jr fez o 15o tempo e José Carlos Pace o 180 .

Depois dos treinos, Emerson e Chapman reuniram-se para decidir qual carro usar.

O velho e equilibrado carro reserva ou o novo e instável modelo atual?

Um motor com 700 km ou um motor 0 km?

O escolhido foi o modelo antigo.

Chapman determinou uma revisão completa no carro reserva.

Convocou todos os mecânicos para trabalhar a noite.

A convocação incluía até os mecânicos de Dave Walker, o segundo piloto da Lotus.

Todos preparando o carro de Emerson.

Aqui temos um exemplo perfeito e acabado de tratamento preferencial ao primeiro piloto.

Pobre Dave Walker.

Chegou o Domingo.

Calor. Trinta e dois graus.

Largaram.

Stewart, como de hábito, largou muito bem.

Regazzoni ficou em segundo e Emerson em terceiro.



O escocês voava na ponta, abrindo boa vantagem sobre Regazzoni.

Emerson precisava ultrapassar o piloto da Ferrari.

E logo, pois Stewart aumentava a distância.

As tentativas foram feitas. Duas, três vezes.

Até que, na saída da curva de alta velocidade logo depois dos boxes, Emerson conseguiu passar a Ferrari.

Emerson, agora na Segunda posição, começou a pensar em alcançar Stewart.

Jackie Stewart estava quatro segundos na frente do brasileiro.

Emerson descontava meio segundo a cada volta.

E aumentava, consistentemente, a distância para Regazzoni.

Um olhar mais atento e abrangente perceberia Denny Hulme realizando uma corrida admirável.

O piloto da McLaren, andando em quarto lugar, pulverizava os cronômetros.

Emerson conseguiu, depois de muita batalha, chegar no vácuo de Stewart.



Stewart, que tinha reserva de potência e talento, resolveu andar mais rápido.

E andou.

Ele não contava, porém, com o desempenho de Emerson que também aumentou a velocidade.

Eles andavam colados e no limite.

Stewart confirmava a sua notória habilidade.

Emerson, por sua vez, apresentava ao mundo a sua.

Foram doze longas e históricas voltas.

Emerson estudava o adversário.

Ameaçava entrar pela direita em determinada curva.

Stewart defendia.

O ataque, em seguida, vinha em outra curva.

Stewart previa o lance e antecipava-se.



Stewart passava muito tempo olhando o retrovisor.

Enquanto os líderes faziam a história de uma corrida memorável, Hulme, impecável, despachava Regazoni.

O velho urso, agora em terceiro, estava andando mais rápido que Stewart e Emerson.

Estabeleceu, inclusive, a melhor volta da corrida e diminuiu a distância para os líderes.

Stewart tinha um implacável Emerson a fungar no seu cangote.

O brasileiro, por sua vez, via a figura de um urso crescendo no retrovisor.

Emerson resolveu partir para o ataque definitivo.

Ele escolheu uma curva e, por duas voltas consecutivas, realizou uma manobra diversionista.

Várias vezes ameaçou passar por um lado.

De repente, em manobra brusca e inesperada, Emerson enfiou o bico por outro lado.

Surpreso, o escocês ainda tentou retardar a freada.

Não deu.

Foi uma ultrapassagem antológica.

Um verdadeiro drible.

Emerson assumiu a ponta e tratou de estabelecer a sua posse.

Ele imprimiu, com a pista livre, um rítimo bastante forte.

A diferença para Stewart aumentava.

Emerson colocou, em poucas voltas, mais de três segundos no escocês.


Faltavam 20 voltas para terminar a corrida e um extraordinário Denny Hulme ultrapassava Stewart.




Hulme assumiu a Segunda colocação e partiu para diminuir a distância até o líder.

O intervalo entre eles era de três segundos.

E os retardatários apareceram.

Muitos. Variados. E, principalmente, lentos.

Emerson, determinado, conseguiu ultrapassá-los sem perder tempo.

Hulme, nem tanto.

A diferença entre os dois aumentou.

Emerson não titubeou em nenhuma ultrapassagem.

Hulme perdeu tempo em algumas.

Faltavam dez voltas para o fim da corrida.

Emerson estava confortável na frente.

Stewart, com problemas mecânicos, perdia rendimento e era ultrapassado por vários pilotos.

A performance de Emerson Fittipaldi era notável.



Nada poderia detê-lo.

A não ser um problema mecânico.

Um estouro de motor, por exemplo, que por sinal já estava chegando aos 1.000 km percorridos.

Emerson pensava no motor do Lotus enquanto completava as últimas voltas.

Aquele bravo motor Ford não poderia estragar uma corrida memorável.

E não estragou.

Emerson venceu.

Stewart e Hulme foram batidos, na pista, por um piloto que graduou-se a condição de candidato ao título de campeão mundial.



O troféu da vitória foi dado ao Rei Pelé, em retribuição a uma camisa 10 que Emerson tinha recebido antes da corrida.


Campinas, 25 de agosto de 2001

Claudio Medaglia


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